3 de agosto de 2010

marcya in box

A minha vida inteirinha cabe dentro de algumas caixas (é que estou de mudança).
É incrivel que, para mudar, precisemos encaixotar primeiro.
Guardar as fotos, livros, objetos, organizar, jogar umas tralhas fora - que a gente nem lembrava mais que existiam. Mas que fariam muito peso na caminhada até o novo lar.

Não vejo a hora de abrir as caixas na casa nova... E começar tudo outra vez!

25 de junho de 2010

rocinha

Um outro planeta onde eu estive esta semana.


30 de abril de 2010

o primeiro filme

Eu tinha cinco anos. Estou certa disso, lembro-me tanto como se essas décadas não tivessem passado por mim sem que eu percebesse. Cinco anos, assim como ele. Pelo menos, era essa a idade com a qual o enxerguei, desde a primeira vez que o vi.

Naqueles dias, o mundo era um lugar familiar. Tinha total convicção sobre minha existência – sabia perfeitamente porque estava ali e de onde tinha vindo. Esse entendimento nato era um privilégio das crianças de tempos atrás, que as crianças de hoje já perderam e os adultos de sempre nunca tiveram.

Eu conhecia bem as letras. Ainda não tinha aprendido a ler rápido, apesar de saber ler devagar. Devagar já lia muito bem, mas no cinema, mesmo que num filme lento, as palavras passavam com mais velocidade que a minha leitura. Por isso precisava de um adulto a meu lado: queria satisfazer o desejo de acompanhar as falas diferentes da tela num código inteligível. Meu pai se entregou a essa tarefa com carinho e humildade. Esticando a mão para mim, me conduziu à sala de projeção.

Havia pouca gente. Nunca tinha estado num salão escuro e tão grande. Era frio. Como o deserto à noite. Mas não senti medo.

As luzes se apagaram completamente. E então, o filme começou. Imenso na tela, como um portal para outros universos que eu queria muito conhecer.

A voz de meu pai repetia, suave, todas as palavras escritas na película. Mas não era a voz de meu pai que eu ouvia. Era a da Raposa, a do Rei, a da Cobra, a da Rosa, a do Aviador, a do Principezinho. Faladas na minha língua. Um milagre!

Assisti a tudo muito quietinha, com a extrema atenção que me era própria.

Quando o filme terminou, eu tinha lágrimas nos olhos – começou aí a minha longa história de chororôs no cinema. Meu pai me pegou de novo pela mãozinha e saímos. Acho que ele ficou meio desconcertado ao me ver chorar, sem saber perguntar para uma criança tão pequena se gostara ou não do que viu. Por isso, ele me ofereceu pipoca. E eu fiquei sorridente de novo.

O que ele não sabia, é que eu tinha entendido tudo, com aquela compreensão de criança de antigamente. E agora o Principezinho seria eternamente responsável por mim.

(Para meu pai Coracy)

27 de março de 2010

completa

26 de fevereiro de 2010

yoga para felinos

Faz tempo que não publico fotos - aliás, faz tempo que não publico nada. Apenas um singelo chiste nesta promissora sexta-feira: Bibi yoge na dificílima postura do "Gato Dormindo". Foto de celular.

26 de janeiro de 2010

maria 29

A mulher metia medo nas crianças da rua. Botava todas pra correr sem precisar abrir a boca. Geralmente quem gritava primeiro era uma delas, assim que avistava uma sombra do bando se aproximar, lá longe.

- Olha a Maria 29! A Maria 29 vem aí! Coooorre!

Ninguém sabia de onde tinha vindo, mas toda semana aparecia, conduzindo o grupo. Era a líder de uns cinco ou seis bêbados conhecidos da vizinhança. A única mulher. Diziam que eram seus maridos. E levava essa alcunha porque teria assassinado cruelmente todos os outros 29 maridos que teve. Esses aí até que estavam com sorte. Já duravam um bocado.

Maria 29 caminhava trôpega, arrastando os chinelos na poeira e trocando as pernas num desafio ao desequilíbrio. Vez ou outra aparecia com uma bengala ou cajado. Um dia, cheguei a vê-la caindo de cara no asfalto. Levantou-se com a ajuda de seus pares, ainda que eles próprios mal e mal se postassem de pé. Saíam andando escorados uns nos outros, uma massa de corpos que se confundia com o vermelho do horizonte de Brasília. Às vezes dava a impressão de estarem emergindo do chão. Lembro-me bem daquele mimetismo profundo com a terra: cabelos, rosto, mãos, todas as roupas, sapatos, bonés e os sacos enormes que sempre carregavam. Tudo numa cor só.

O pai e a mãe da gente diziam que a Maria 29 colocava as crianças no saco e levava embora para sempre.

Mas para sempre, na minha cabeça, era tempo demais. Tão abstrato que, na medida infantil, devia durar uns dois ou três meses, no máximo. Por isso talvez, não chegava a ter medo dela, de verdade. Não parecia-me tão ameaçadora, apesar do aspecto geral do bando. Achava até que tinha algo de frágil e desprotegido, e muito mais do que eu, menininha magrinha de óculos fundo-de-garrafa.

Uma vez, falei com ela. Perdi o receio – porque medo nunca foi – e me aproximei. Não me lembro mais o que disse nem o porquê. Sei apenas que posso ouvir sua voz até hoje e agora mesmo em meus ouvidos. Uma voz suave e macia, que parecia vir de qualquer outra criatura, um ventríloquo, que assim falava por ela. Era um tom que não combinava com aquele molambo de gente, ao mesmo tempo assustada e assustadora, feito um Frankenstein incompreendido ressurgido na terra batida do cerrado.

- Maria 29 não sabe o que diz – foi o que ela respondeu. E sorriu.

Vi os buracos entre as gengivas. Senti o bafo de cachaça. Os olhos sanguíneos não eram tristes, apenas cansados. Apesar de tudo, tinha a expressão doce e tranquila, de quem simplesmente se deixa estar no mundo.

“Maria 29 não sabe o que diz”.

Essa frase, eu jamais esqueci.

18 de janeiro de 2010

gentilezas

Na saída da lanchonete chique, num dos anexos da Câmara dos Deputados, tirei a carteira da bolsa para pagar a conta.

“Boa tarde”, disse simpaticamente à moça do caixa que, se não respondeu, também sequer me olhou. Entreguei a comanda, ela fez os cálculos e disse o preço do almoço. Paguei.

“Muito obrigada”, insisti. Da mesma mudez que começou, meu diálogo unilateral ficou. A mulher nada disse e imediatamente virou-se para tratar outros assuntos. Engoli minha polidez com tristeza. Não volto mais nesse lugar. E a verdade é que tenho visto, cada vez mais, cenas assim por aí.

Um descaso generalizado com o outro, com o bem-estar de um – ainda que desconhecido -, uma falta de cuidado com o que é de uso comum e mais: de se prestar pequenas cortesias no dia-a-dia.

Se praticássemos a gentileza com afinco, certamente não haveria tanta gente reclamando no Procon ou nos consultórios de psicologia. Nem tantos enchendo as cadeias e os hospitais. Se disséssemos mais “com licença”, “por favor” e “desculpe”, se relevássemos certos deslizes involuntários, se tivéssemos essa consciência que se prontifica a perdoar um erro reconhecido, a história – do mundo provavelmente – seria outra.

O problema é que vivemos tentando provar para nós mesmos que somos melhores, na pior acepção do termo. Até sem perceber. Exaltamos nossos egos em minúcias, mesquinharias e ironias que ficariam muito bem enterradas nos confins da inutilidade de onde vieram. E a gentileza denota uma concordância nata, uma certa submissão sutil. Um consentimento que pode parecer fraqueza, a princípio. Mas que não é.

Para ser gentil sempre, é preciso ser sábio, compreensivo, generoso. É preciso olhar no olho do outro e ter a convicção única de ser bom, de exercitar a cumplicidade com seu vizinho pelo simples fato de serem, ambos, seres humanos.

E isso, de reconhecer que somos iguais, convenhamos, é muito mais difícil.

22 de dezembro de 2009

solte os bichos

No primeiro dia foi um escorpião. Daqueles amarelos, graúdos.
- Amorzinho, olha que engraçado: tomei banho com um escorpião...
- Não, não mata não; quando ele está visível assim não tem perigo.

Depois foram umas pererequinhas.
- Posso pegar e levar lá pra fora?
- Será que elas estão felizes aqui?

Meu namorado mora na roça. É área rural dentro da cidade. Dez minutos de estrada de terra e já se está no meio do mato. Além de gostar de estar lá pelos mais evidentes motivos, gosto demais desses outros, da proximidade com as plantas e os bichos. Pouca gente sabe, mas sempre tive um pezinho descalço na terra. Pensei em cursar Agronomia, Veterinária. Pode ser que esse sonho ainda se faça. O esperar é dos casulos e das sementes. E há os que esperem anos.

As cigarras ficam assim, nessa expectativa, enterradas no chão. Conheço gente que as odeia e num trava-língua propala: pragueja contra a praga. Eu não. Até me ofereço para fazer serviço de resgate – das cigarras, obviamente. Na época do renascimento, via de regra uma e outra entram também pela janela de meu apartamento, inadvertidamente, as pobres. Na maioria das vezes consigo retirar a tempo das garras da Bibi. Outras não têm a mesma sorte. Lamento. Entristeço-me. Vou lá e recolho os pedacinhos, planto no jardim em frente ao prédio. Eu era daquelas menininhas que pegavam casca de cigarra com a mão.

Lembrei-me agora desses dias, quando eu era uma criança sozinha e calada. Não tinha graça para menino nenhum da escola tentar me assustar com esses bichos; pelo contrário. Mais de uma vez fui eu quem assustou, mostrando para eles um louva-a-deus enorme, um bicho-pau – que, ao contrário do que muita gente pensa, é molinho – ou uma libélula estatelada. As pessoas achavam estranho, que não combinava comigo. Achavam que eu tinha cara de fresquinha e frágil, de quem tinha medo de tudo. Mas sempre me fascinei pelos bichos todos, incluindo os insetos.

Também, pudera. Já tive sob meus cuidados, em diversos momentos da vida, e agrupados de diferentes maneiras, dois pintinhos – que viraram galinhos; um pato bagunceiro e barulhento; dezesseis gatos – sendo duas gestações de seis filhotes da Lindinha; dez hamsters – o casal que ganhei quintuplicou em menos de um mês; uma cobrinha alimentada com alface e banana; três cachorros, sendo dois vira-latas; um sapinho que morava no banheiro; um sapão que morava perto da piscina e aparecia e desaparecia magicamente; uma iguana gorda que vivia no oco da árvore do jardim, chamada de Florzinha; uma infinidade de peixinhos, entre os quais um dourado que se transformou em carpa e perdurou por sete anos; além de um número incontável de formigas, joaninhas, grilos, besouros, aranhas e borboletas – que eu capturava e libertava diariamente.

Talvez por isso eles me procurem e venham direto a mim, até no meio da multidão.

(E sendo assim, também presenteio com um conselho, neste novo ano que se aproxima:

Solte seus bichos! Deixe-se levar por eles de vez em quando. Tenha sensibilidade para enxergá-los, quão pequeninos que sejam. Ofereça um afago; permita-se afagar. E se aparecer algum que te assuste, encare de perto. Pode ser que ele nem seja assim tão grande, nem tão ameaçador. Saia do casulo para cantar, amar, se espalhar pelo vento leve, metamorfoseante, e não importa o tempo que leve.

Feliz 2010.)

15 de dezembro de 2009

nascimento


Desde o momento em que havia chegado, percebia a turba, ruminando. Não era algo explícito; sentia-se no ar. Ondas rebentando, calor, sentidos em alerta de instinto, sensores de uma vibração que vinha do solo, como o prenúncio de um terremoto. Eu ainda não sabia o que era.

No dia, vi que o mar invadia o continente, em cores que eu nunca tinha visto antes no mar. Era uma torrente contínua de vermelho e negro, vermelho e negro, vermelho e negro, que em pouco tempo já não se podia mais enxergar o chão. O ruído vinha por cima, pelos lados, por baixo, tomava a massa inteira, uma possessão. E, quando olhei para trás, vi que eu também me consubstanciara numa das milhares de moléculas formadoras daquele ser. Seguia junto com todas as outras num pensamento em uníssono, ouvido por quem escutar pudesse, perto ou longe, em todo o lugar.

Logo, lá dentro, o animal encontraria o aspecto que ansiava assumir desde muito. A forma de um só. Coração que batia forte, vermelho e negro, vermelho e negro, vermelho e negro. Foram dezessete anos de gestação. O feto colossal queria nascer.

Nem foi preciso muito. Em menos de duas horas veio a luz, a explosão, o grito, o choro. A verdade se fez maior. Vive o hexacampeão!

27 de novembro de 2009

novo blog

É por aqui que ando fiando meu tempo ultimamente - quando sobra algum. Entre experimentos novidadeiros e memoráveis velharias, fio e afio horas a fio... Visitem: http://otempoafiar.blogspot.com/!


23 de novembro de 2009

love


9 de novembro de 2009

o mundo num copo d'água

Coloquei o globo terrestre num copo d'água
Feito uma dentadura que observa,
Em meio a muxoxos de borbulhas,
O mundo distorcendo-se lá fora.
Flutuações dentifrícias
Num dia de devaneios banguelas.

Coloquei-o e o esqueci lá.

24 de outubro de 2009

insomnia

[Do lat. insomnia.] S. f. Med. 1. Incapacidade, decorrente de causas diversas, de conciliar o sono; agripnia, anipnia, vigília, espertina, insonolência.
[Cf. insonia, do v. insoniar.]

Fonte: Aurélio

15 de outubro de 2009

presentinhos































Presenteada pela delicada arte de minha querida Fábia Belém.
Mais desenhos no blog Notas de Viagem.

13 de outubro de 2009

39

Estou com medo de fazer 39.